O Senado aprovou na reforma eleitoral o critério proposto pelo senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), que obriga as pesquisas de opinião pública seguir os mesmos critérios de idade, gênero, nível de renda e escolaridade que a pesquisa do IBGE.
Como se sabe, o duopólio Data-da-Folha e Globope erram mais do que as previsões da urubóloga Miriam Leitão.
Os institutos de pesquisa mundialmente fabricam pesquisas com dois artifícios: a deformação da amostra e a manipulação da margem de erro.
A discussão é uma forma de lançar à luz do sol para desinfetar essa indústria tipicamente brasileira.
Paulo Henrique Amorim entrevistou por telefone o autor da emenda que venceu no Senado, Marcelo Crivella, e Aloizio Mercadante (PT-SP), que faz restrições à proposta. Leia a seguir:
Marcelo Crivella – Paulo Henrique, a minha posição é a mesma defendida pela maioria do Senado Federal, que aprovou a emenda. Nós temos uma preocupação, na verdade, porque os institutos de pesquisa, pressionados pelas paixões políticas, muitas vezes alteram a amostra pesquisada, que deverá representar o universo fielmente. Então eles mudam, por exemplo, o número de pessoas formadas, o número de pessoas com renda mais alta e acabam prejudicando os candidatos com base popular. E isso já tem precedentes, inclusive brigas entre institutos cujos números são díspares. Como é que a gente pode fazer mudar isso? Fizemos o seguinte: na hora das pesquisas vamos adotar como critério os do IBGE. Não é assim que a gente divide, por exemplo, o Fundo de Participação dos Municípios e Estados? Os recursos do Imposto de Renda, 70% desses recursos são dados, devolvidos aos estados e municípios com critérios de população, de renda, de IDH. Nada mais justo que as pesquisas que dizem respeito a sexo, idade, grau cultural e renda sejam os dados do IBGE ou do Tribunal Superior Eleitoral brasileiro, por exemplo. Dados oficiais. Não dados de interpolação feitos apenas pelos institutos. Os censos no Brasil são de dez em dez anos. Não quer ir de dez em dez anos, faz a interpolação. E é na interpolação que há a manipulação.
Paulo Henrique Amorim – Como o senhor acha que será possível controlar isso?
Crivella – É difícil controlar. O fato é que você não pode dizer, matematicamente, a priori, que um instituto está errado. São processos matemáticos. Eu disso assim: eu estimo que aqui, na cidade de São Paulo, o número de pessoas de classe A não é de apenas um milhão. São dois milhões, de acordo com minha base de pesquisa. Aí, a Justiça pressupõe o seguinte – ele vai te desmoralizar na hora do resultado. Muitas vezes, eles usam o candidato para criar onda. Eu vou te dar um exemplo clássico, sem levar para um caminho pessoal. Candidatos com base popular normalmente tem, pelas posições que defendem, uma rejeição de 10, 15, 20%. Então, se esses candidatos inflados chegassem próximo do candidato popular, por exemplo numa disputa no segundo turno, toda aquela rejeição do candidato popular será coagulada, magnetizada para vir para aquele terceiro colocado, que tem condições de tirá-lo do segundo turno. Então, formou a onda. Porque o que estava com 10% passou para 20% por exemplo. E aí, no resultado das urnas não se confirmam [as pesquisas] porque um erro que deveria ter sido diagnosticado, porque os sintomas não aparecem, tendo em vista que formaram a onda. Isso é uma coisa, digamos assim, um instituto… determinado candidato formar uma onda e depois dizer assim: olha, o primeiro levantamento estava certo. Não estava certo não. Infelizmente induziu a rejeição a se coagular toda para aquele candidato
PHA – Como é que a Justiça Eleitoral vai poder comprovar, aprovada a sua emenda, que o instituto respeitou a base do IBGE, ou a distribuição do IBGE.
Crivella – Ô Paulo Henrique, é simples. Quando pegarem a metodologia, quando eles fizerem a apresentação dos documentos para registrar a pesquisa deles, eles vão ter que assinar e assumir que estão usando a base de dados do IBGE. Então, se é uma pesquisa de entrevistas, se for no Rio de Janeiro, por exemplo, então nós temos lá 55% de mulheres e 45% de homens em termos de eleitores, quase isso. Então, eles vão ter que incluir isso nos formulários: tantas mulheres, tantos homens. Da mesma forma farão com os outros dados.
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Ouça aqui a íntegra da entrevista com o senador Marcelo Crivella
E veja também o que o senador Aloizio Mercadante disse sobre esse assunto:
Paulo Henrique Amorim – Outra questão que diz respeito à eleição, especialmente no Brasil, que tem praticamente um monopólio do Datafolha e do Ibope, que foi o Senado aprovar usar a metodologia do IBGE para a realização de pesquisa. Qual é a importância disso, o que isso significa?
Aloizio Mercadante – Particularmente, eu critiquei essa exigência. Eu acho que você tem muita metodologia de aferição de resultado eleitoral. E todas tem margem de erro e, às vezes, o erro é maior que a margem. E você não assegura isso tentando engessar a metodologia de aferição. Porque existe a metodologia, por exemplo, do fluxo. Por que a pesquisa de boca de urna é a que mais se aproxima dos resultados? Porque os eleitores estão entrando no fluxo aleatório de todas as urnas e você tem uma amostragem muito mais eficiente. Eu vou dar um exemplo clássico, que agrediu todas as supostas metodologias dos institutos. Você se lembra, a disputa Fernando Henrique e Jânio em São Paulo. Todos os institutos deram a vitória do Fernando Henrique. O Fernando Henrique foi lá, sentou na cadeira, comemorou a vitória. O único veículo que tinha feito uma pesquisa sem nenhuma metodologia científica era a Jovem Pan. Ela ficava na rua e todo dia perguntava em quem o povo ia votar. E dava Jânio. E foi a única emissora que acertou. Então, não há como nós preestabelecermos uma metodologia. O objetivo da emenda do senador Crivella é evitar a manipulação da amostragem, exigindo que ela tenha simetria com a base de dados do IBGE. Mas eu não acho que isso resolva, e não há uma metodologia científica que seja precisa. E, na verdade, vários institutos manipulam os resultados para tentar induzir as eleições. Tem sido assim em muitas eleições do Brasil, mas eu não vejo… E no mundo afora, né? Porque sempre tem instituto que puxa para um candidato e outro puxa para o outro. Então nós não temos ainda uma forma de equacionar isso em definitivo. Eu já fui vítima mais de uma vez de pesquisa eleitoral e sei o quanto dói essa situação. De qualquer forma, eu não sei como a gente possa resolver isso. Pelo menos eu não conheço em nenhuma democracia a solução definitiva para esse problema.


















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