Discurso do senador Marcelo Crivella proferido hoje no Plenário do Senado, na Sessão Especial em homenagem ao aniversário de 120 anos do Jornal do Brasil. O senador foi o requerente da Sessão.

Senhor Presidente,

Senhoras Senadoras e Senhores Senadores,

Fundado em 1891 por Rodolfo Epifânio de Sousa Dantas, o JB tinha como meta defender o regime deposto. De nível já elevado, contava com a colaboração de notáveis do calibre de José Veríssimo, Oliveira Lima, Barão do Rio Branco, Rui Barbosa e o inesquecível Joaquim Nabuco – o abolicionista temerário e ousado, fundador da Academia Brasileira de Letras, embaixador do Brasil nos EUA, doutor em letras por Yale que no Brasil escreveu com letras imortais, e que cito apenas para mostrar o padrão de independência do JB: “A Igreja Católica, apesar do seu imenso poderio em um país ainda em grande parte fanatizado por ela, nunca elevou no Brasil a voz em favor da abolição da escravidão’”. E disse mais com respeito a liberdade da consciência: “Em um discurso proferido em 15 de maio de 1879 que abrangia tanto o tema da educação pública, quanto o da separação entre Estado e Religião,

Em um trecho memorável, expressa:

“A Igreja Católica foi grande no passado, quando era o cristianismo; quando nascia no meio de uma sociedade corrompida, quando tinha como esperança a conversão dos bárbaros, que se agitavam às portas do Império minado pelo egoísmo, corrompido pelo cesarismo, moralmente degradado pela escravidão. A Igreja Católica foi grande quando tinha que esconder-se nas catacumbas, quando era perseguida. Mas, desde que Constantino dividiu com ela o império do mundo, desde que de perseguida ela passou a sentar-se no trono e a vestir a púrpura dos césares, desde que, ao contrário das palavras do seu divino fundador, que disse: – O meu reino não é deste mundo, – ela não teve outra religião senão a política, outra ambição senão o governo, a Igreja tem sido a mais constante perseguidora do espírito de liberdade, a dominadora das consciências, até que se tornou inimiga irreconciliável da expansão científica e da liberdade intelectual do nosso século!”.   Esse era o grande  Joaquim Nabuco, colaborador dos maiores na construção dessa história inesquecível do JB.

Naquela ocasião, o periódico inovou por sua estrutura empresarial, parque gráfico, pela distribuição em carroças e a participação de correspondentes estrangeiros, como o escritor português Eça de Queirós. 

Desde então, o jornal foi fechado algumas vezes devido a incompatibilidades políticas com os donos conjunturais do poder. De todo modo, sempre retornou à ativa com a mesma envergadura comunicativa. No entanto, sua vocação verdadeiramente jornalística somente se firmou nos meados do século passado.  

Senhor Presidente, um pouco de saudosismo não faria mal neste momento. Se fechar os olhos posso ver o plástico que na década de setenta eu tinha na janela do meu quarto, era o costume dos meninos, um elefantinho que era símbolo do JB e de sua colossal liderança no coração dos cariocas. Foi nas sua páginas que encontrei meu primeiro emprego quando tinha apenas 14 anos. O JB foi pioneiro e a maior expressão do que no futuro seria uma realidade nacional até os dias de hoje: os classificados. Aliás, a própria diagramação da primeira página do matutino se desenhava toda na prevalência incondicional dos classificados sobre as notícias do dia. 

A mudança de lay-out de primeira página só ocorreu com a introdução de uma política de modernização promovida pela inesquecível Condessa Pereira Carneiro e implementada por uma equipe de jovens jornalistas e artistas gráficos como Amílcar de Castro, Odylo Costa Filho, Ferreira Gullar, Alberto Dines e Jânio de Freitas, sob supervisão de Manuel do Nascimento Britto, genro da Condessa.

Mirando os jornais impressos na Europa e nos Estados Unidos, a redação jornalística foi transformada em laboratório industrial de produção de notícias sérias, profundas, confiáveis e bem escritas, focado em um público urbano, política e intelectualmente mais preparado.  

Mais que isso, à época, o JB se notabilizou pelo fato ser o primeiro jornal a dispor de um departamento de pesquisa, mediante o qual sua qualidade editorial e de notícias passou a adquirir patamares incontestáveis de excelência. A partir dali, o padrão de qualidade do jornalismo brasileiro tomou como parâmetro as folhas impressas do diário carioca.  

Sob o regime militar iniciado em 1964, o compromisso do JB com a verdade não foi abalado. Pelo contrário, o jornal se viu compelido a arrostar os grilhões da censura, sob pena de ter seu nome maculado para sempre na memória política do País. Ilustres protagonistas da cultura e da política do Brasil compareciam nos cadernos com crônicas e artigos ácidos, denunciando as mazelas e os abusos cometidos pelo estado de exceção.

Sem dúvida, um dos grandes símbolos referenciais contra a ditadura militar no Brasil foi Henfil, cartunista que ilustrava diariamente as páginas do JB com personagens espetaculares. Maior deles, Ubaldo, o paranóico, não raro era convidado para sair de casa com os amigos, sempre ressalvando “ainda não, espera um pouco: ainda não li a coluna do Castelinho”. Carlos Castelo Branco, extraordinário jornalista, era, de fato, ao lado de Tristão de Athaíde, a referência fundamental para acompanhar os desenvolvimentos da política brasileira e, especialmente, contra a ditadura e a favor do processo de transição democrático. Sua coluna no JB era imbatível.

Nessa linha, outro marco dos serviços prestados pelo JB à imprensa nacional foi a cobertura das eleições estaduais em 1982, a primeira depois da ditadura militar. Com enfoque especial no Rio de Janeiro, a editoria cobria o embate entre Leonel Brizola, do PDT, e Moreira Franco, do antigo PDS. Apuração tumultuada, o JB cumpriu sua missão democrática e deu espaço para as denúncias de fraude eleitoral, claramente cometidas por forças contrárias ao reingresso do inquietante Brizola à vida política nacional.

Mas não era só isso. A vida cultural brasileira, nas décadas de 1970, 80 e 90 era impossível de ser compreendida sem a leitura do Caderno B, adornada com as crônicas fabulosas de Clarice Lispector, Hélio Pelegrino, Ferreira Gullar, Zuenir Ventura, Reynaldo Jardim, Danuza Leão, Xexéo, Tutty Vasques e o poeta Carlos Drummond de Andrade, o inesquecível mineiro que no Rio, com o coração estraçalhado de saudades da sua sempre lembrada Itabira, se tornou universal, vertido em idiomas, lido, comentado em universidades, tema de teses, discutido nas cátedras dos Continentes, sente a nostalgia das Gerais, de seus ares, de sua gente, de suas casas, de suas ruas compridas, tortas e que pedia:

“Espírito de Minas me visita e conserva em mim ao menos a metade do que fui de nascença e a vida esgarça.”

No “Colóquio das Estátuas “, pagina das mais belas da nossa língua, que as antologias mais exigentes não podem dispensar, retratando, numa conversa fantástica, os profetas que a inspiração divina do Aleijadinho plantou no adro do Santuário de Congonhas, como que se interpretando, escreveu:

“Assim confabulam, os profetas, numa reunião fantástica, batida pelos ares de Minas. Onde mais poderíamos conceber reunião igual senão em terra mineira, que é o paradoxo mesmo, tão mística que transforma em alfaias e púlpitos e genuflexórios a febre grosseira do diamante, do ouro e das pedras de cor? No seio de uma gente que está ilhada entre cones de hematita e, contudo, mantém com o universo uma larga e filosófica intercomunicação, preocupando-se como nenhuma outra com as dores do mundo no desejo de interpretá-las, leni-las? Um povo que pastoril e sábio, amante das virtudes simples, da misericórdia, da liberdade — um povo sempre contra os tiranos, e levando o sentimento do bom e do justo a uma espécie de loucura organizada, explosiva e contagiosa, como o revelam suas revoluções liberais?

São mineiros esses profetas. Mineiros na patética e concentrada postura em que os eternizou o mineiro Aleijadinho; mineiros na visão ampla da terra, seus males, guerras, crimes, tristezas e anelos; mineiros no julgar friamente e no curar com bálsamos; no pessimismo; na iluminação intima; sim, mineiros de cento e cinquenta anos atrás e de agora taciturnos, crepusculares, messiânicos e melancólicos.”  

São essas coisas que Drummond plantou em nós que nos faz sofrer a falta do JB das bancas. A falta daquele jornal impresso deixa uma lacuna na concepção das nossas memórias, ainda que exista hoje na sua versão espectacular, dinâmica, colorida como nunca e atualizada na velocidade do mundo digital. A ninguém escapa o vazio que restou depois de sua extinção em 2010. Nessa linha, a saída do JB do papel diário pode até ser saudada, por alguns, como um ingresso inadiável à modernidade. No entanto, para outros – mais tradicionalistas – seu desaparecimento material deixou um amargo sabor de saudade, uma memória afetiva de abandono e solidão.   

Mas, Senhor Presidente, os tempos são outros. Hoje, o primeiro jornal 100% digital trocou de roupa, mantendo a confiável qualidade informativa. Para deleite dos leitores mais fiéis, conservou representativa porção de colaboradores, cronistas e articulistas que fizeram escola na versão impressa. Mas, de todo modo, trata-se, no mínimo, de outro veículo informativo, com outra proposta editorial, para um outro público-leitor. 

Senhor presidente, parodiando o  poeta mineiro que hoje se faz tão presente entre nós, digo que há uma rua que começa no Rio, que tem 120 anos de cumprimento e que vai dar no meu coração. Nessa rua passam meus pais com um jornal na mão, passam os anúncios das sessões de cinema de sábado à tarde, as torcidas no Maracanã, a praia lotada, a banca de jornal da esquina,  o charme, a elegância, o prestígio e a eloquência intelectual da minha terra. Polêmicas divertidas, entrevistas sérias, denúncias e alta cultura que refletiam de alguma maneira o humor genial do carioca, a vida social do Rio de Janeiro.

Que o Jornal do Brasil continue sendo esse patrimônio monumental da nossa civilização, o guardião incorruptível e vigilante da democracia do Brasil e as mais belas lembranças e a mais firme esperança de um jornalismo a altura da cultura, da dignidade e da nobreza do povo brasileiro.

Fonte: Assessoria do Senador Marcelo Crivella

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