Presidenta Vanessa Grazziotin, eu gostaria de continuar na mesma frequência, no mesmo espírito do Senador Cristovam Buarque, para falar da nossa preocupação com a educação, com a cultura.
Visitei recentemente a TV Brasil. Fiquei impressionado e gostaria de registrar a minha impressão no Plenário desta Casa.
Eu queria começar falando da gestão que uma ilustre dama mineira está fazendo à frente da TV Brasil. Ela conseguiu, em pouco espaço de tempo, um local próprio. Ali fez uma obra que nos surpreende a todos. Eu não sabia que ela tinha essas virtudes da administração. Eu sou engenheiro civil por formação e sei a dificuldade que é fazer uma obra no centro de uma cidade, sobretudo como Brasília. Ela, vencendo enormes dificuldades, com aquele espírito dos bandeirantes, com a fibra da mulher brasileira, com a fé de um mártir, conseguiu fazer estúdios, tanto de rádio como de televisão, e ajeitar toda sua parte administrativa. É lá que eles fazem a resenha dos jornais pela madrugada. Implantou um sistema de computação extraordinário, e tudo isso com recursos orçamentários modestos diante da obra que ela realizou.
Eu conheço um pouco as televisões. Já estive nas grandes tevês brasileiras, não só dando entrevistas, mas passeando, conversando. Conheço, talvez mais de perto, a Record. Sei do custo que tem isso tudo. Em nenhuma dessas grandes televisões brasileiras, eu vi, por exemplo, estúdios com câmeras de controle remoto, como vi nesses novos estúdios que estão sendo implementados na TV Brasil. Como a mídia exerce um papel extraordinário na cultura do povo – é hoje um dos veículos com maior audiência –, entregar como patrimônio do povo brasileiro uma televisão com essa capacidade tecnológica e tão bem administrada é realmente uma coisa que nos traz esperança de ver, no futuro, programações que não poderiam passar nos canais privados, por questão de interesses financeiro, terem espaço nessa televisão ou nas nossas rádios.
Sei que agora virá um processo legislativo. Vai vencer o mandato da nossa ilustre dama mineira, mas eu gostaria de ser o primeiro, aqui, a defender sua permanência.
Faço isso não porque ela pertença ao meu Partido ou por qualquer outro tipo de afinidade política. Faço isso por dever de consciência, por reconhecer uma obra, eu diria, extraordinária, as dificuldades que ela superou, todos os obstáculos que venceu. Implantar alguma coisa no Brasil é sempre muito difícil e com orçamentos escassos.
Eu gostaria de aplaudir a nossa Tereza Cruvinel que, durante tantos anos, dedicou sua vida, por meio da imprensa, a fazer críticas da política e a acompanhar o Congresso numa coluna que era lida por todos os brasileiros, não vou dizer por todos os brasileiros, mas por grande parte do público brasileiro, e ela sempre foi muito prestigiada lá. E agora nos dá a prova não só de sua capacidade de articular e de escrever – isso todos nós sabíamos e aplaudíamos –, mas também de administrar, de projetar, de vencer, com criatividade e inteligência, a escassez dos meios e, num tempo recorde, garantir um patrimônio para educação, para cultura, para democracia do povo brasileiro, que é uma TV pública.
Apenas gostaria de, numa próxima audiência, discutir, aqui no Senado, não uma decisão da Tereza, mas uma decisão do Conselho de Administração, que retirou dessa televisão os programas religiosos da Igreja Católica, a Santa Missa em seu Lar, e também Palavra de Vida, da igreja batista. São igrejas das quais não participei nem participo, mas acho que o Conselho fez um equívoco, porque, se é televisão estatal, como a TV Senado, que agora é usada como veículo para este meu pronunciamento, deve, sim, estar separada da religião, por uma questão da laicidade do Estado, mas a mesma coisa não se deve dizer de uma TV pública. A religião é muito importante para o espírito dos povos, sempre foi e não há sinais de que deixará de ser.
Portanto, o povo brasileiro, que é detentor de tradições cristãs, assistiria, eu diria, com prazer, tanto programação católica quanto programação evangélica, até porque o tempo que foi dado a elas não é nada excessivo. Acho que esse mesmo público reagirá mal, quando ver que, na pauta, foram retirados esses programas, sem consultá-lo.
A própria Conselheira que compõe esse órgão superior oriundo do Senado Federal não me consultou, também não tenho certeza se consultou os demais Senadores, mas eu sou um Líder nesta Casa e não fui consultado. Se ela representa o Senado, talvez devesse consultar pelo menos os Líderes para uma deliberação que eu acho relevante. Muito mais – eu diria – pelo valor simbólico, já que numa televisão pública nós devemos defender a nossa cultura, nossas raízes, nossos valores e aquilo que vemos presente na vida nacional das pessoas, na sua idiossincrasia, mais importante pelo valor simbólico, até mesmo pelo valor de audiência, que eu não saberia precisar, mas acredito que não seja no horário em que foram dados esses programas eles consigam atingir os maiores índices de audiência.
Mas, de qualquer forma, Srª Presidenta, eu gostaria de deixar aqui esse meu voto de aplauso, essa minha satisfação, diria até mais, esse meu orgulho cívico de ter visto uma televisão pela primeira vez no nosso País… Havia outra antes, mas era tão incipiente. Quem visitava a TV Educativa no Rio de Janeiro saía dali até cabisbaixo, deprimido, porque as instalações eram de dar pena. A gente via que não teria nenhuma penetração no grande público por absoluta falta de meios, de avanços tecnológicos, de condições, embora os profissionais fossem todos muito competentes e até, de certa forma, laboriosos e voluntariosos.
Agora não. Agora nós vemos uma TV pública à altura da nossa cultura, dos nossos valores e da importância para a democracia e para a Justiça de termos um canal onde as pessoas possam assistir a uma programação que não seja apenas aquela dada, como é nos canais públicos, a simplesmente conseguir mais audiência e, com a audiência, conseguir mais lucro através, normalmente, da exploração das emoções, da alegria ou do choro. É assim que normalmente se movem as audiências e os marqueteiros fazem uso das emoções das pessoas para cativar a sua audiência. Agora, nós podemos ter um canal público onde as pessoas sejam incentivadas à cidadania, à participação política, a vencer a resignação, mesmo diante de uma sociedade tão desigual como a nossa e nós só vamos conseguir isso através da participação deles.
Veja que hoje os grandes avanços que fizemos na política não diminuíram as desigualdades, porque conseguimos, na verdade, retirar milhões de pessoas da classe D. E isso é muito bom. Nós trouxemos pessoas para a classe C e para a classe B, mas, na prática, no empiricismo da coisa, nós estamos aumentando o consumo. O consumo aumenta a desigualdade, porque aqueles que vendem, os que são donos dos meios de produção acabam enriquecendo mais, e o consumo não enriquece, não no sentido das coisas materiais. É preciso, então, que haja participação política porque, à medida que nós temos maior desigualdade na nossa sociedade, o cidadão comum, diante desse imenso abismo, acaba se resignando, acaba achando que a política não é absolutamente o caminho para a conquista dos seus sonhos ou para a questão da justiça. Ele acaba se afastando da vida pública.
Nós podemos ver o exemplo dos Estados Unidos, que têm uma sociedade de consumo por décadas e lá se elege um Presidente da República com 28% dos votos. O consumo é concentrador de poder e renda, embora seja uma estratégia política para vencer eleições. Agora, aqueles que querem construir uma sociedade mais democrática, uma sociedade pluralista e conquistas de justiça e de democracia hão de dar valor a um canal público que possa, sim, trazer essa experiência ou esses valores para a população brasileira e despertá-la e engajá-la na luta política.
De tal maneira que eu, como democrata, como Senador e como uma pessoa que quer pensar o Brasil para o futuro, não poderia deixar de vir aqui hoje para enaltecer o trabalho que foi feito até aqui e dar um voto de confiança para que essa ilustre dama mineira possa conduzir essa televisão e concluir o trabalho que tão brilhantemente iniciou, deixando de herança para o Brasil um marco, uma âncora da nacionalidade, capaz de nos guiar, eu diria, a um novo tempo.
É isso que eu espero e é dessa maneira que eu começo aqui a fazer uma campanha até modesta, mas muito sincera e desinteressada, pela Tereza Cruvinel, parabenizando sua obra na tevê pública.
Muito obrigado, Presidenta.
















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